A jornalista Anamaria Rossi está por algum tempo (diz o Noblat) na cidade de Barcelona, de onde escreve as Cartas de Barcelona, publicadas pelo Noblat e no blog da jornalista, http://yoquesebarcelona.wordpress.com . O texto de agora, “O Turismo tem alma?” faz um alerta ao Rio de Janeiro: “E fico me perguntando se acontecerá o mesmo com o Rio de Janeiro depois das Olimpíadas. Se Santa Tereza vai sucumbir à pressão imobiliária, se Copacabana será transformada numa grande Rambla sem alma, se o inglês será a língua oficial na Zona Sul quando a horda de bárbaros chegar para ficar”.
Por isso e pela qualidade do texto, o tudoeturismo atende à sugestão do deputado estadual João Pedro e reproduz as palavras da Anamaria Rossi.
Os textos publicados pela Anamaria Rossi são excelente leitura e, em razão da experiência recente que teve a Cidade do Rio de Janeiro com o aluguel de bicicletas, vale a leitura do “Uma Cidade sobre Rodas. Duas”, que foi publicado no dia 20 de fevereiro tanto no blog da Anamaria, como no do Noblat. Aqui no Rio, pelo que se vê o projeto não colou.
Vamos ao “O Turismo tem alma?”
Por muitos anos a pequena Vila de São Jorge, na Chapada dos Veadeiros, viveu dividida entre cobrir ou não com asfalto os 36 km de terra que a separavam da cidade de Alto Paraíso, a 200 km de Brasília.
Quando a visitei pela última vez, ano passado, a vila já havia sucumbido ao apelo do progresso, e o asfalto chegava até o Morro da Baleia, logo depois do boteco do Seu Valdomiro, na metade do caminho até São Jorge.
Mesmo entendendo o desejo de alguns de preservar a autenticidade de suas vidas, sempre foi um mistério para mim o fato de alguém não querer o progresso.
Mas depois de quase um ano vivendo no coração da Barcelona turística, compreendo perfeitamente os tradicionalistas de São Jorge. E mais: virei uma tradicionalista.
Uma coisa é visitar um centro turístico, outra é morar nele. Tentar manter a rotina em meio ao turbilhão que passa sob a janela é um desafio para a sanidade mental.
Em seu último livro, “A cidade ilhada”, o escritor manauara Milton Hatoum situa um dos contos – “Encontro na península” – na capital da Catalunha.
Começa assim: “O ano é 1980: agosto, muito calor em Barcelona. E pencas de turistas barulhentos, como hordas de bárbaros vindos do Norte.”
Hatoum não exagera quando se refere aos veranistas que aportam aqui como “hordas de bárbaros”. E é muito preciso quando os identifica como “vindos do Norte”.
Europeus em sua maioria, a turba que desfila sob minha janela é das mais selvagens. Estou convencida de que a idéia do europeu civilizado é um mito que só se sustenta no inverno, pelo menos no caso dos turistas.
É claro que há pessoas educadas entre eles, mas elas estão de férias! Não precisam acordar às seis da manhã, levar filho ao colégio, enfrentar os exames na faculdade, trabalhar de segunda a sexta.
Que diferença faz para o turista educado se os mal educados ignoram a existência dos cidadãos locais e passam uma semana, um mês, uma temporada vivendo na cidade alheia como se ela fosse um imenso parque de diversões à disposição do seu prazer?
Se bebem até alta madrugada mapeando as ruas numa algazarra insuportável, quem se importa? Se mijam na parede atrás do bar desenhando um riozinho asqueroso, quem se importa?
Se despejam seus resíduos sólidos na porta da casa dos barceloneses ou invadem as igrejas em plena cerimônia de casamento com suas câmeras incansáveis, quem se importa?
“Os turistas se comportam como se estivessem realmente em um parque temático, e nós fôssemos os funcionários”, diz um amigo que vive há três anos em Barcelona.
A falta de limites para o turismo – e para o turista – é fruto do mesmo modelo de gestão de cidade que permitiu a escalada do mobbing imobiliário, do qual falei aqui há algumas semanas.
Um modelo que tem o turismo como fim, e não como meio. Que privilegia o temporário em detrimento do permanente. Que se apropria das tradições e as transforma em objetos de consumo, esvaziando-as de tal forma de seu conteúdo original que elas deixam de existir como tradições.
As Ramblas já não são as Ramblas, as tapas já não são as tapas, as paellas então nem se fale! Assim como já não se encontra, em Granada, uma legítima cueva gitana com um autêntico bailado flamenco, o que se vende aqui é apenas a imagem de uma Barcelona que se recolhe cada vez mais para o quintal.
Vocês vão dizer que eu sou uma chata que mora numa cidade maravilhosa e se dá ao luxo de reclamar. É verdade. Quando eu ainda era turista, achava tudo lindo maravilhoso. E ainda acho!
Mas não posso deixar de sentir o cheiro de urina na minha rua quando o sol esquenta, nem de me sentir invadida pelos gritos dos bêbados no meio da madrugada. Não posso evitar o desconforto de estar sempre cercada por uma multidão de desconhecidos cada vez que vou ao mercado.
E fico me perguntando se acontecerá o mesmo com o Rio de Janeiro depois das Olimpíadas. Se Santa Tereza vai sucumbir à pressão imobiliária, se Copacabana será transformada numa grande Rambla sem alma, se o inglês será a língua oficial na Zona Sul quando a horda de bárbaros chegar para ficar.
Só por isso compartilho aqui um desabafo tão pessoal. O desabafo de uma cidadã barcelonesa, ainda que temporária, contra a selvageria turística que invade a cidade na primavera/verão.
Porque acredito, de verdade, que ainda podemos salvar a alma brasileira.
Paisagem « yo que sé? em 2010-06-09
[...] em turismo sem alma, a Carta de Barcelona do último sábado foi reproduzida na íntegra pelo site Tudo é Turismo, do Rio, por causa do (mau) exemplo que a gestão da BCN turística pode representar para a gestão [...]
Kruk em 2010-06-16
Que dureza. Nada é tão bom que não tenha seu lado ruim. Para mim que ouço muito falar do sucesso de Barcelona, é novidade toda essa consequência do turismo desordeiro. Pensando agora, ouvi relatos parecidos de moradores de Blumenau em relação a October Fest. Mas pergunto, Barcelona é uma terra sem leis?