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Uma gente que aliou a força do turismo à força da mulher

Há coisa de três meses, exatamente no dia 02 de janeiro, uma cidade brasileira quase saiu do mapa em razão de fortes chuvas. São Luiz de Paraitinga, pólo de turismo histórico e cultural, ficou transformada em escombros. Nós, aqui no tudoeturismo, comentamos o fato comparando-o com o que houve em Angra dos Reis, cidade do Estado do Rio que também sofreu perdas consideráveis em razão das chuvas. Demonstramos que a fatalidade destruiu Paraitinga, enquanto a irresponsabilidade dos governos causou os problemas em Angra dos Reis. No dia 06 de janeiro, escrevemos: “Cortada pelos rios Paraitinga, Paraibuna, Paraíba, Claro, Ribeirão Prata, Ribeirão Turvo e Ribeirão Chapéu, São Luiz do Paraitinga, cidade paulista do Vale do Paraíba, quase desapareceu em razão de uma fatalidade provocada pelas fortes chuvas do final do ano passado, que fizeram subir mais de 10 metros acima das margens, as águas do Paraitinga”.

Hoje, apenas três meses depois, somos surpreendidos com uma excelente notícia transmitida pelo jornal O Estado de São Paulo: “Reerguida, Paraitinga espera por turistas”. A matéria é de Bruno Paes Manso, que construiu um texto muito bom. Mas, um dos motivos do sucesso do trabalho de reconstrução, a TV Globo demonstrou, nas comemorações do Dia Internacional da Mulher: “As mulheres de São Luiz de Paraitinga assumiram o papel principal à frente do trabalho de reconstrução. O tudoeturismo reproduz a notícia e a matéria do Bruno Paes Manso, com uma frase do deputado estadual João Pedro: “Às vezes a gente acha que a reconstrução de uma cidade é providência impossível. As mulheres de Paraitinga entenderam que não. Elas resolveram enfrentar o desafio e os resultados aparecem com velocidade. Elas compreenderam que era possível fazer e, simplesmente, fizeram. O turismo é uma atividade econômica que tem este espírito”

Vamos, então, à matéria do Bruno Paes Manso. Não deixem de ler. Ela traz o exemplo de um povo, que sabe a importância que tem a força de vontade. Sabe que, por vezes, ela chega a ser maior do que a força da natureza.
“O caipira Pôncio Pilatos, interpretado pelo contador de histórias Ditão Virgilio, especializado em sacis, anuncia sobre o coreto da Praça da Matriz, em São Luís do Paraitinga, a chegada do império da congada, do moçambique e do maracatu. São 21h de quarta-feira. Começam os ensaios para a retomada do calendário cultural da cidade, três meses depois das enchentes que quase tiraram Paraitinga do mapa.

Na frente dos escombros da Igreja da Matriz, que desabou em janeiro durante as chuvas, um grupo de 30 pessoas trabalha para representar a Paixão de Cristo na Sexta-Feira Santa, com 150 figurantes. O evento pretende mostrar que São Luís do Paraitinga já se reergueu e está pronta para receber turistas. “Não queremos a agitação dos antigos carnavais, que trazia dinheiro, mas também problemas. Queremos mergulhar na nossa identidade cultural. A tragédia nos mostrou que por isso somos tão queridos”, diz o diretor de Turismo de São Luís do Paraitinga, Eduardo de Oliveira Coelho.

Franzino, o poeta e músico de modas de viola Marcelo Overá, que também toca na banda Tarancón, vai interpretar Jesus. Durante os ensaios, um homem solta na plateia que será preciso fabricar uma cruz de bambu para o Cristo magricelo aguentar o peso. Ditão, o Pôncio Pilatos com chapéu de palha, desce do palco para explicar à reportagem que Saci-Pererê até podia ser levado, mas não era malvado, recitando versos de cordel. “Saci era defensor da natureza. Somos a cidade com a maior quantidade de sacis no mundo”, diz.

Na frente das ruínas de um casarão de 1824, que também desabou durante as cheias, vai ocorrer a crucificação. Era um dos prédios mais antigos da cidade, propriedade da família de Antônio Ebran Júnior, diretor da Paixão de Cristo, que já tentava retomar a encenação em Paraitinga havia oito anos. A enchente levou as autoridades a cederem.

Foi de Ebran a ideia de misturar a saga religiosa com hits musicais das missas católicas e ritmos da cultura local, tocados ao vivo. “Nossa tradição mistura o sagrado e o profano”, explica. No ensaio, entre outras tarefas, o diretor precisa conter os ímpetos de Dhanija, de 5 anos, filha de “Jesus”, que tenta impedir os romanos de chicotearem o pai.

Ressurreição. Ensaios à noite. De manhã, a partir das 7 horas, sons de marreta, furadeira, caminhão, homens pintando fachadas e pedreiros fazendo reboque nas paredes. A festeira São Luís do Paraitinga está ansiosa para o recomeço. Os turistas ainda não voltaram. Duas das três entradas da cidade estão fechadas, o que pode assustar. Basta pegar a rota alternativa. Paraitinga já está pronta para receber.

Cerca de 80% do comércio reabriu. No feriado, mil leitos em pousadas e hotéis e duas mil refeições diárias nos restaurantes aguardam os visitantes. Além da Paixão de Cristo, com congada, moçambique e maracatu, haverá a tradicional procissão do Senhor Morto, novenas, a Malhação de Judas, com cortejo do Bloco Pé na Cova, orquestra sinfônica e coro da Universidade de São Paulo (USP). A cidade também recebe uma etapa da Haka Expedition, competição com as melhores equipes nacionais de esporte radical. Mas o ponto alto do feriado serão as missas, rezadas no meio dos escombros da Igreja da Matriz.

A rápida reconstrução de São Luís do Paraitinga surpreendeu até os mais otimistas. Depois das chuvas, a cidade teve cerca de 600 das 2 mil casas afetadas pelas águas. Dos 425 prédios tombados, 86 foram destruídos ou ficaram abalados. O carisma de Paraitinga e a grande concentração de investimentos e apoio permitiram a reviravolta.

Solidariedade. Nenhum morador da cidade passou fome, já que as doações permitiam oferecer até 5 mil marmitex por dia, suficiente para metade da população, sem contar os estoques de leite, arroz, feijão e macarrão para os que podiam cozinhar. O Supermercado Cursino, um dos primeiros a reabrir, dobrou a média de vendas de iogurtes, biscoitos e carne. “Já o consumo de arroz e feijão caiu porque muitos ainda têm cestas básicas”, diz João Rafael Cursino, proprietário do supermercado e integrante do bloco Os Estrambelhados.

As roupas, que lotam o ginásio municipal, começam a ser doadas para cidades vizinhas. Os comerciantes querem que os donativos cessem para a retomada da economia local. Não houve as temidas epidemias. Vieram remédios, médicos e enfermeiros. Alguns fornecedores deram créditos, perdoaram dívidas, permitindo que comerciantes se reerguessem aos poucos.

O empresário Michel Khayat Neto estima o prejuízo com as chuvas em R$ 320 mil, em equipamentos e estoques da Padaria Nossa Senhora da Aparecida. Em fevereiro, estava derrotado, quando um fornecedor da Marlboro veio bater com um cheque em sua porta. Khayat mandou o homem embora. Não tinha como pagar. Mas o fornecedor estava lá para perdoar a dívida de R$ 8 mil. “Ao todo, tive R$ 60 mil de dívida perdoada. Serei eternamente grato ao Depósito Michelin, Casa Sales, Moinho Correcta, Brahma. Ponha o nome deles no jornal”, pede, emocionado.

Serão reconstruídas ainda as duas igrejas, está prevista a reforma do Mercado Municipal e prefeitura, vão ser erguidas uma nova escola de música e uma biblioteca. O Instituto do Patrimônio Histórico Nacional (Iphan) e o Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico Estadual (Condephaat) dão assessoria permanente aos donos de imóveis tombados. Os investimentos devem chegar a R$ 40 milhões. Um novo slogan, que circulou em fevereiro, se popularizou entre os moradores: ‘Vamos construir uma cidade ainda melhor’.”

Cultura

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Chover é uma novidade? Para os governos, sim

Os desastres provocados pelas fortes chuvas estão tendo e terão, por muito tempo ainda, conseqüências fortemente negativas sobre a economia dos municípios atingidos, principalmente daqueles que dependem do turismo como atividade econômica fundamental, como acontece com Cunha, São Luiz de Paraitinga e Angra dos Reis. Teresópolis também foi palco dos desastres no início do período de férias, com a morte de três pessoas em razão do deslizamento de terras nas encostas da estrada que contorna a Serra dos Órgãos.

Os fatos reafirmam que, por mais eficiente que seja o trabalho dos gestores públicos responsáveis pelo incentivo ao turismo, o resultado de seus esforços será vão se não funcionarem bem as demais políticas públicas, as que cuidam desde a segurança nas estradas até a conversação do ambiente. Este é o tema que estimulou a criação do nosso site e o trabalho de um dos seus colaboradores, o deputado estadual João Pedro, do DEM do Estado do Rio de Janeiro.

Os comentários da imprensa sobre os desastres e as respostas imediatas dos governantes deixam a impressão de serem as chuvas periódicas e fortes, um fenômeno novo no mundo. No vídeo, o Prefeito de Angra dos Reis demonstra surpresa com as chuvas e acha um absurdo o comportamento da população, mas não diz o que fez o governo municipal para evitar desastres como os que ocorreram.

O planeta conhece chuvas abundantes desde sua criação. Mas, quem constrói e autoriza construções parece desconhecer o fenômeno e quando as chuvas cumprem o rito da natureza, todos parecem surpresos.

O turismo e todas as atividades humanas sofrem com a surpresa dos governos e da imprensa.

Mário Carlos Beni é pesquisador especialista no campo do turismo e autor de “Análise Estrutural do Turismo”. No capítulo de introdução à obra, ele afirma que o turismo, “como resultado do somatório de recursos naturais do meio ambiente, culturais, sociais e econômicos, tem campo de estudo superabrangente… Organizar esse imenso complexo de fatores – que são causas e efeitos intervenientes, não se podendo afirmar com certeza, ante mera investigação simplista, que fatores decidem a atividade turística e quais os que não a determinam – constitui empresa árdua”.

O Turismo é uma atividade econômica e as suas variáveis, como em qualquer outra atividade deste tipo, interagem de modo completo, numa situação em que as causas de um fenômeno podem ser também efeito e vice-versa.

Os desastres ocorridos no final do ano representam falhas nas políticas de conservação do ambiente e de fiscalização e acompanhamento das encostas, variáveis que comprometeram a atividade econômica e sacrificaram vidas de pessoas que praticavam ou exploravam o turismo ou viviam. Claramente falharam os governos.

Alguns jornalistas utilizaram para a ocorrência o termo “tragédia anunciada”, porque a ocupação das encostas no Brasil é tema sacrificado nas políticas públicas.

O Dicionário Houaiss define tragédia como “ocorrência ou acontecimento funesto que desperta piedade ou horror” e dá para a palavra alguns sinônimos, mas entre eles não inclui “fatalidade”, que significa “destino que não se pode evitar”. Portanto, a tragédia provocada pelas chuvas na virada do ano, outro responsável não tem a não serem os governos. Eles poderiam tê-la evitado.

E, neste ponto, cabe registro para o Decreto 41.921 publicado no dia 10.06.2009, pelo Governador Sérgio Cabral Filho. O dispositivo simplesmente amplia exponencialmente o risco de novas ocorrências. Deverá ser revogado, porque Cabral gosta mais de festas do que de problemas e o seu sumiço nas primeiras 48 horas do desastre, para local ignorado, comprova o comportamento.

Assim que expediu o Decreto, Sérgio Cabral Filho foi advertido do risco por diversas organizações de defesa do ambiente.

Uma das advertências chegou ao Governador dois meses depois da publicação do Decreto, no dia 05 de setembro de 2009, formalizada pela APEDEMA-RJ, Assembléia Permanente de Entidades de Defesa do Meio Ambiente, em forma de Ofício a correspondência está endereça também à Secretária Estadual do Ambiente, Marilene Ramos e ao Ministro do Meio Ambiente, o carioca indicado ao Ministério pelo Sérgio Cabral, deputado Carlos Minc.

Apesar do Decreto, que estimula e premia a ocupação irregular das encostas em Angra, o Governador Cabral respondeu aos desastres acontecidos na Ilha Grande com a responsabilização dos governos passados, que durante décadas autorizou a ocupação das encostas com o argumento populista de que essa era uma maneira de se prover moradias para famílias carentes.

Chegou ao nosso conhecimento que o deputado estadual João Pedro, Presidente da Comissão de Turismo da Assembléia Legislativa do Estado do Rio, por compreender a importância do trabalho da Defesa Civil na prevenção de acidentes nas encostas e, por conseqüência, no desenvolvimento do turismo, adotará medidas no sentido de investigar a atuação e responsabilidade do governo do estado na ocorrência do desastre.