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Afinal, se tudo é motivo para fazer turismo, porque a usura (cobrar juros extorsivos em empréstimo de dinheiro) e as críticas à democracia não seriam? Os temas estão expostos na cidade de Florença, na Itália. Cidade conhecida como pólo turístico por ser, no mundo, o centro intelectual e artístico da Renascença.
Sobre “Denaro e Belezza”, escreveu Merval Pereira com o título, “A Moral do Dinheiro”, artigo publicado no O Globo na edição desse domingo, que reproduzo aqui copiado do blog do Ricardo Noblat.
Mais adiante, em razão do texto do Merval, recupero um texto bíblico, presente no Livro de Mateus, Capítulo 25, versículos de 14 a 29, onde Jesus Cristo conta a “Parábola dos Talentos”, para demonstrar que essa história de multiplicar os bens com o recebimento de juros, juros de 100%, é uma orientação Cristã. E, sem seguida, um depoimento sobre Florença, publicado pelo jornal Folha de São Paulo.
A Moral do Dinheiro – Merval Pereira.
Em tempos de “indignados” acampados em praças ao redor do planeta, cuja mais perfeita tradução é o “Ocupem Wall Street”, que de Nova York se espalhou por diversas cidades dos Estados Unidos e do mundo, nada mais atual do que a exposição “Dinheiro e Beleza. Banqueiros, Botticelli e a fogueira das vaidades”, em exibição até 22 de janeiro no belíssimo Palazzo Strozzi, um dos mais finos exemplos da arquitetura da Renascença, no centro de Florença, na Itália.
Um dos aspectos abordados na exposição é a usura, que desde a Antiguidade até os dias de hoje separa a economia da moralidade, no centro dos debates dos “indignados” de hoje, que consideram que o capitalismo precisa de regulamentações e amarras contra a especulação financeira.
Os curadores da exposição, Ludovica Sebregondi e Tim Parks, têm visões distintas a partir de suas origens: ela é uma historiadora com formação católica, ele um jornalista protestante. A partir da criação do florin de ouro, em novembro de 1252, que se transformou na principal medida de valor em toda Europa, trazendo para Florença grande prestígio e provando-se importante trunfo para os comerciantes e banqueiros da cidade, a exibição percorre dois séculos e meio “da mais resplandecente época da história de Florença”, que experimentou nesse período um rápido desenvolvimento econômico, com um fluxo de dinheiro alimentando a demanda por grandiosidade de uma classe privilegiada, que se expressou de maneira especial no patrocínio das artes.
A atividade de emprestar dinheiro era das poucas permitidas aos judeus – a outra era a medicina -, e sempre foi vista de maneira negativa.
Nessa tensão, “doações para a salvação da alma” tornaram-se comuns, dirigidas à caridade ou às artes. A Igreja tinha preocupação de proteger pessoas em dificuldades financeiras, e os franciscanos, a partir de 1462, ajudaram a estabelecer instituições que impediam a usura.
O famoso óleo de Marinus van Reymerswaele, de 1540, “Os Usurários”, do Museu Stibbert de Florença, faz parte da exposição.
As imagens de usurários queimando no fogo do inferno perturbavam tanto emprestadores quanto tomadores de empréstimos.
A “carta de troca” surgiu como uma maneira de permitir que fosse dado um empréstimo em troca de pagamento de juros sem que parecesse usura. Por mais de 200 anos ela permitiu a banqueiros lucrarem sem se sentirem usurários. Funcionava assim: se alguém queria trocar florins por libras inglesas, por exemplo, os florins eram dados em Florença e as libras recebidas em Londres.
A viagem para Londres demorava 90 dias, e nesse período, a taxa de troca se alterava produzindo lucro, e muitas vezes nem era preciso fazer a viagem.
Outro quadro de Marinus van Reymerswaele “O cambista e sua mulher”, de 1540 do Museu Nacional de Bargello, em Florença, está na exposição, e já mostra uma mudança na percepção.
O cambista já não é uma figura grotesca como no quadro “Os usurários”. A “carta de troca” tornou-se o principal instrumento de crédito e financiava o comércio internacional, e os banqueiros passaram a atuar também como comerciantes.
Segundo uma das curadoras da exposição, Ludovica Sebregondi, a tensão entre a exigência da Igreja de sobriedade, e o incontrolável amor pelo luxo, produziu obras de artes sublimes nos séculos XIV e XV.
O estabelecimento de uma moeda como medida de valor de todas as coisas, ao mesmo tempo em que permitiu comparações entre, por exemplo, um barril de vinho e uma prece por um ser amado doente, trouxe uma generalizada sensação de desconforto, especialmente por que na época as diferenças sociais eram tidas como expressões da vontade divina.
Eram freqüentes as queixas no século XIV de que um simples camponês podia usar seu dinheiro para mudar-se para um local melhor ou até mesmo “abrir as portas do paraíso”.
O livre uso do dinheiro ameaçava ao mesmo tempo o status quo e a metafísica cristã, ironiza Tim Parks, outro dos curadores da mostra.
Um exemplo dessa tensão é o quadro de Botticelli “Madona e a criança”, pintado para ajudar as preces de um cliente privado, coisa que somente os muito ricos podiam se dar ao luxo. A Madona, embora tenha dado à luz em uma manjedoura, está ricamente vestida.
A partir do século XIII, com a disseminação do comércio e das novas demandas de consumo, os símbolos de riqueza foram se multiplicando, e aumentando também aqueles que tinham condições de exibir sua riqueza, criando uma tensão com os ensinamentos da Igreja que definiam as classes sociais como desejos divinos.
Foi então baixada uma legislação que pretendia limitar a exibição da riqueza não apenas em roupas e ornamentos, mas também em festas, banquetes, batismos e funerais.
O século XIV trouxe duas novidades: cavaleiros, doutores, médicos, juízes e suas mulheres tinham permissão de ostentar suas riquezas, e tornou-se aceitável que se burlasse a lei desde que se pagasse uma multa, o que ajudava a encher os cofres públicos.
A crise da sociedade Florentina no final do século está ligada à disputa entre os Médici e o frade Girolano Savonarola. A luta entre Lorenzo e o frade de Ferrara marca o final do século XV.
Uma das peças mais bonitas da exposição é “Cristo crucificado”, uma tempera em molde pintado dos dois lados por Botticelli, de 1496, que tem tudo a ver com a pregação de Savonarola, a cujos preceitos Botticelli aderiu depois da morte do frade.
O trabalho foi encomendado pelos dominicanos do convento da cidade de Prato, onde Savonarola tinha grande influência.
Em 1497 e 1498 Savonarola organizou duas fogueiras de coisas “vãs, lascivas e desonestas” na Piazza della Signoria em Florença, eventos altamente contestados e aplaudidos, polêmica que contribuiu para a sua derrocada.
Em 1498, na mesma praça onde o triunfo sobre as vaidades havia sido comemorado, Savonarola foi enforcado juntamente com dois companheiros, e seus corpos foram queimados. Uma tempera de Felippo Dolciati de 1498, do Museu de São Marco em Florença, mostra a execução de Savonarola.
Na definição da Igreja na época, o usurário peca por que vende o intervalo de tempo entre o momento em que empresta o dinheiro e o recebe de volta, com lucro. Ele, portanto, negocia o tempo, que pertence a Deus.
Mas havia exceções: Tomás de Aquino estabeleceu as condições para que contratos legítimos pudessem cobrar juros, e Bernardino de Siena fez a distinção entre um usurário e um banqueiro, cujo negócio permitia a circulação da riqueza, ainda hoje base do sistema financeiro.
Prática condenada pela Igreja, que proibia a reprodução do dinheiro sem que fosse resultado de produção de bens ou de sua transformação, a usura provoca a pergunta que está no ar até hoje: onde a compensação justa termina e começa o lucro que destrói vidas?
PARÁBOLA DOS TALENTOS, CONTADA POR JESUS CRISTO.
Livro de Mateus – Primeiro Evangelho – Capítulo 25, versos de 14 a 19:
Porque isto é também como um homem que, deixando a sua terra, chamou os seus servos e entregou-lhes os seus bens. Ao primeiro, deu cinco talentos, ao segundo, dois e ao terceiro, um. A cada um segundo a sua capacidade. E ausentou-se.
E, tendo ele partido, o que recebera cinco talentos negociou com eles, e granjeou outros cinco talentos. Da mesma sorte, o que recebera dois, granjeou também outros dois. Mas, o que recebera um, foi e cavou na terra e escondeu o dinheiro do seu senhor.
Muito tempo depois veio o senhor daqueles servos, e fez contas com eles.
Então se aproximou o que recebera cinco talentos, e trouxe-lhe outros cinco talentos, dizendo: Senhor, eis aqui outros cinco talentos que granjeei com os cinco que recebi.
O Senhor respondeu: Bem está servo bom e fiel. Sobre o pouco foste fiel, sobre muito te colocarei; entra no gozo do teu senhor.
E, chegando também o que tinha recebido dois talentos, disse: Senhor, eis aqui os dois outros talentos que ganhei com os dois que recebi.
Disse-lhe o seu senhor: Bem está, bom e fiel servo. Sobre o pouco foste fiel, sobre muito te colocarei; entra no gozo do teu senhor.
Chegando também o que recebera um talento, disse: Senhor, eu conhecia-te, que és um homem duro, que ceifas onde não semeaste e ajuntas onde não espalhaste.
Atemorizado, escondi na terra o teu talento; aqui tens o que é teu.
Respondendo, porém, o seu senhor, disse-lhe: Mau e negligente servo; sabias que ceifo onde não semeei e ajunto onde não espalhei?
Devias então ter dado o meu dinheiro aos banqueiros e, quando eu viesse, receberia o meu com os juros.
Depois de falar, o Senhor tirou-lhe o talento, para entregá-lo ao que tinha dez.
Porque a qualquer que tiver será dado, e terá em abundância; mas ao que não tiver até o que tem ser-lhe-á tirado.
FLORENÇA
Sobre Florença, o depoimento é de Emerson Perez, da Folha de São Paulo, publicado na edição de 17 de junho de 2003, merece destaque. Disse ele:
Nos 300 anos em que foi dominada pelos Médici, uma rica e sanguinária família de banqueiros, Florença financiou arquitetos, pintores, escultores e atraiu a maior quantidade de gênios por metro quadrado que o mundo já viu. Entre os séculos 14 e 16, a cidade foi palco de revoluções na poesia (Dante Alighieri), ciência política (Maquiavel), escultura (Donatello, Cellini, Ghiberti, Giambologna), pintura (Giotto, Michelangelo, Botticelli, Filippo Lippi) e arquitetura (Bruneleschi, Giorgio Vasari).
Florença foi, por direito, a cidade de Leonardo Da Vinci, o modelo do “homem da Renascença”: alguém que podia dominar arquitetura, engenharia, biologia e pintura, por exemplo. Ali nasceu o conceito do artista como se conhece hoje, um profissional remunerado pelo talento e com direitos sobre sua obra.
Passeios dispensam automóvel
Uma das vantagens da capital da Toscana é a concentração dos pontos mais interessantes na região central, acessíveis a pé. Comece visitando a Piazza della Signoria, o coração da cidade. É lá que estão as principais esculturas ao ar livre, a Galleria Uffizi, o Palazzo Vecchio e algumas sorveterias que, sem heresia, engrossam a categoria de obras-primas florentinas.
Para não tornar sua experiência frustrante, prefira visitar a praça à tarde, quando em geral há menos turistas e dá para ver as obras com calma. A mais famosa, e de certo modo um símbolo de Florença, a estátua de Davi, é na verdade uma cópia. O original está na Galleria Dell’Academia, a primeira escola de artes da Europa, na parte norte da cidade.
Encravado na praça, o Palazzo Vecchio, de 1322, sede da prefeitura, foi palco de conspirações, assassinatos e golpes variados -ali eram punidos com forca, fogueira ou espada os inimigos e ex-amigos suspeitos de conspirar contra os Médici.
Nenhuma obra é mais reveladora do clima político florentino do que o Corredor Vasariano, uma passagem de 800 metros que liga a Ufizzi, onde funcionavam os escritórios do duque Cosimo 1º, ao Palazzo Pitti, residência dos Médici. Projetado pelo arquiteto Giorgio Vasari, o corredor foi concebido para que os mandatários da cidade pudessem ir do trabalho para a casa sem o risco de serem assassinados. É a síntese perfeita da dobradinha “terror e arte” típica da “famiglia”: as paredes inspiradas pelo medo abrigam obras magníficas em toda a sua extensão.
Museu abriga clássicos renascentistas
A Uffizi é visita obrigatória. O museu abriga hoje a mais importante coleção renascentista do mundo, com clássicos como “O Nascimento da Vênus”, de Botticelli, e a “A Sagrada Família”, de Michelangelo. Mas não deixe de reservar seu ingresso com um dia de antecedência, com hora marcada, para não ficar mais de duas horas na fila de entrada.
O museu Bargello, equivalente à Uffizi mas com acervo restrito a esculturas, é muito menos concorrido, mas não menos importante. Há uma coleção admirável de peças de Donatello, Michelangelo, Cellini e Giambologna, entre outros.
Na saída da Uffizi, próximo ao rio Arno, fica a histórica ponte Vecchio, construída em 1345. Com dezenas de joalherias, o local vive cheio, principalmente no final da tarde, quando é ocupada por centenas de interessados em ver o pôr-do-sol.
Do outro lado do Arno, além do Palazzo Pitti e seus jardins magníficos, há a praça Michelangelo, mais a leste, de onde se tem a melhor vista da cidade.
Catedral é a quarta maior da Europa
Outro ponto fundamental é o Duomo. A catedral impressiona pelo tamanho (é a quarta maior igreja da Europa), o uso das cores e, claro, seu projeto arquitetônico. A cúpula, de 1463, é a obra-prima de Bruneleschi, que inovou na construção de seu sistema de sustentação.
A principal atração, porém, está na magnífica porta do batistério, esculpida por Ghiberti (facilmente identificável pela quantidade de pessoas que se aglomeram à sua volta). Tenha paciência e tente ver com calma cada detalhe -não foi por acaso que o próprio Da Vinci a chamava de “porta do paraíso”.
É preciso pelo menos quatro dias para uma visita razoável a Florença. Mesmo assim, é difícil não sair de lá sem a estranha sensação de ter visto muita coisa e ainda assim saber que não viu tudo o que devia.
Dito isso, vamos ao texto do Merval, observando que de toda a nossa conversa vale uma visita, ainda que virtual, à Exposição que está em carta em Florença.
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