Os desastres provocados pelas fortes chuvas estão tendo e terão, por muito tempo ainda, conseqüências fortemente negativas sobre a economia dos municípios atingidos, principalmente daqueles que dependem do turismo como atividade econômica fundamental, como acontece com Cunha, São Luiz de Paraitinga e Angra dos Reis. Teresópolis também foi palco dos desastres no início do período de férias, com a morte de três pessoas em razão do deslizamento de terras nas encostas da estrada que contorna a Serra dos Órgãos.

Os fatos reafirmam que, por mais eficiente que seja o trabalho dos gestores públicos responsáveis pelo incentivo ao turismo, o resultado de seus esforços será vão se não funcionarem bem as demais políticas públicas, as que cuidam desde a segurança nas estradas até a conversação do ambiente. Este é o tema que estimulou a criação do nosso site e o trabalho de um dos seus colaboradores, o deputado estadual João Pedro, do DEM do Estado do Rio de Janeiro.

Os comentários da imprensa sobre os desastres e as respostas imediatas dos governantes deixam a impressão de serem as chuvas periódicas e fortes, um fenômeno novo no mundo. No vídeo, o Prefeito de Angra dos Reis demonstra surpresa com as chuvas e acha um absurdo o comportamento da população, mas não diz o que fez o governo municipal para evitar desastres como os que ocorreram.

O planeta conhece chuvas abundantes desde sua criação. Mas, quem constrói e autoriza construções parece desconhecer o fenômeno e quando as chuvas cumprem o rito da natureza, todos parecem surpresos.

O turismo e todas as atividades humanas sofrem com a surpresa dos governos e da imprensa.

Mário Carlos Beni é pesquisador especialista no campo do turismo e autor de “Análise Estrutural do Turismo”. No capítulo de introdução à obra, ele afirma que o turismo, “como resultado do somatório de recursos naturais do meio ambiente, culturais, sociais e econômicos, tem campo de estudo superabrangente… Organizar esse imenso complexo de fatores – que são causas e efeitos intervenientes, não se podendo afirmar com certeza, ante mera investigação simplista, que fatores decidem a atividade turística e quais os que não a determinam – constitui empresa árdua”.

O Turismo é uma atividade econômica e as suas variáveis, como em qualquer outra atividade deste tipo, interagem de modo completo, numa situação em que as causas de um fenômeno podem ser também efeito e vice-versa.

Os desastres ocorridos no final do ano representam falhas nas políticas de conservação do ambiente e de fiscalização e acompanhamento das encostas, variáveis que comprometeram a atividade econômica e sacrificaram vidas de pessoas que praticavam ou exploravam o turismo ou viviam. Claramente falharam os governos.

Alguns jornalistas utilizaram para a ocorrência o termo “tragédia anunciada”, porque a ocupação das encostas no Brasil é tema sacrificado nas políticas públicas.

O Dicionário Houaiss define tragédia como “ocorrência ou acontecimento funesto que desperta piedade ou horror” e dá para a palavra alguns sinônimos, mas entre eles não inclui “fatalidade”, que significa “destino que não se pode evitar”. Portanto, a tragédia provocada pelas chuvas na virada do ano, outro responsável não tem a não serem os governos. Eles poderiam tê-la evitado.

E, neste ponto, cabe registro para o Decreto 41.921 publicado no dia 10.06.2009, pelo Governador Sérgio Cabral Filho. O dispositivo simplesmente amplia exponencialmente o risco de novas ocorrências. Deverá ser revogado, porque Cabral gosta mais de festas do que de problemas e o seu sumiço nas primeiras 48 horas do desastre, para local ignorado, comprova o comportamento.

Assim que expediu o Decreto, Sérgio Cabral Filho foi advertido do risco por diversas organizações de defesa do ambiente.

Uma das advertências chegou ao Governador dois meses depois da publicação do Decreto, no dia 05 de setembro de 2009, formalizada pela APEDEMA-RJ, Assembléia Permanente de Entidades de Defesa do Meio Ambiente, em forma de Ofício a correspondência está endereça também à Secretária Estadual do Ambiente, Marilene Ramos e ao Ministro do Meio Ambiente, o carioca indicado ao Ministério pelo Sérgio Cabral, deputado Carlos Minc.

Apesar do Decreto, que estimula e premia a ocupação irregular das encostas em Angra, o Governador Cabral respondeu aos desastres acontecidos na Ilha Grande com a responsabilização dos governos passados, que durante décadas autorizou a ocupação das encostas com o argumento populista de que essa era uma maneira de se prover moradias para famílias carentes.

Chegou ao nosso conhecimento que o deputado estadual João Pedro, Presidente da Comissão de Turismo da Assembléia Legislativa do Estado do Rio, por compreender a importância do trabalho da Defesa Civil na prevenção de acidentes nas encostas e, por conseqüência, no desenvolvimento do turismo, adotará medidas no sentido de investigar a atuação e responsabilidade do governo do estado na ocorrência do desastre.