Conheci e passei a gostar das poesias de Carlos Figueiredo, poeta, escritor e especialista em estratégia de comunicação, quando busquei conhecer melhor o organizador dos 100 Discursos Históricos, uma obra e tanto para quem tira o seu sustento da elaboração de discursos políticos.
Depois de ler e anotar os 100 Discursos, com prazer, eu fui à leitura de Goliardos, Estranha Desordem, Marpalavrilhar, Réquiem para Alfonso Dellelis, que deveria ser uma bandeira a tremular no mastro do Palácio do Planalto nestes tempos de sindicatos no Poder.
Carlos Figueiredo está na edição de ontem do jornal Valor Econômico, para contar que não foi, de todo, agradável a viagem que ele fez à pequena cidade de Trancoso, na Bahia. O analfabetismo funcional, peste nacional, está na origem das dores de cabeça.
Vale reproduzir um pequeno trecho:
“Na volta do encontro de Natal (…), quinze dias de praia sem nuvem, traineira para Caraíva, rede na varanda, falésias, o vai e vem da maré no horizonte e a lua cheia na virada do ano. Tudo perfeito, não fosse o sofrimento desnecessário, causado pela insídia do Custo Brasil, que nos submeteu ao seu ordálio característico, já no início, no aeroporto de Guarulhos.
A ineficiência nacional derrota mesmo aqueles com décadas de experiência. Em horas ao telefone reconfirmamos nossas reservas, especialmente a da cachorrinha. Todavia, no check in – o que não nos surpreendeu (o pior custo é essa perda da sensibilidade) -, ela não havia sido feita. A atendente, por um milagre, conseguiu que embarcássemos. Ao lado – Céus! Como Kafka estava certo! – várias famílias não tiveram a mesma sorte. “Estou levando a ceia”, dizia uma senhora, em prantos.
Eis o Custo Brasil: sofrimento desnecessário e desperdício de tempo e dinheiro para o usuário e para a empresa obrigada a arcar com chamadas extras que incidem sobre um sistema cronicamente sobrecarregado e pondo em risco seu caríssimo investimento em marketing a cada lista do PROCON, matéria negativa e presença na seção de carta dos leitores.
RH e Operação mudam procedimentos, treinam a mão de obra. Meras gambiarras. O cerne do problema, o nosso analfabetismo funcional, permanece incólume. Nas pesquisas acerca do entendimento do conteúdo do texto feitas pela ONU e a OCDE, os brasileiros, independente de classe social, ficam nos últimos lugares.
Varre o Brasil, de cabo a rabo. Em Trancoso, acertamos com um serviço anunciado em panfleto razoavelmente leiautado, uma viagem de barco até Caraívas, parando na volta na praia do Espelho. Ao combinar o passeio, exigi coletes salva-vidas para todos. No embarque, vi um bolo deles amontoados na proa. Por ser óbvio, não me ocorreu solicitar escada lateral e escaler seguro.
Quase morri. No meio da viagem, paramos para dar um pulo no mar. Quando quis voltar, vi que não havia escada que desse acesso ao convés. Sexagenário, fui objeto de esforços ingentes, que me fraturaram uma costela. Fui “salvo” pelo escaler, mal calafetado, que me serviu de trampolim para retornar ao barco. Na volta, descobrimos que os salva-vidas eram para crianças. A resposta do marinheiro: “Eu tinha fé em Deus que não iríamos precisar deles”.
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