Bayard Do Coutto Boiteux é especialista em turismo com diversas obras publicadas, uma delas, Legislação de Turismo, essencial para quem se dedica ao tema, principalmente como operador. Colaborador voluntário da Comissão de Turismo da Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro, Presidida pelo deputado João Pedro, Bayard publicou no Globo on Line o texto “Angra dos Reis e o turismo”. Pela qualidade do texto e importância do autor, o tudoeturismo resolveu reproduzir e manter em seus arquivos.
O texto segue a linha de denunciar a responsabilidade do agente público – do Estado – pelos problemas que Angra dos Reis conheceu na passagem do ano, mesma linha que levantamos aqui desde o momento do desastre.
A responsabilidade do governo fica mais evidente, quando ele, depois das ocorrências, manda desocupar as encostas, providência que deveria ter adotado antes. O fato fica agravado por um decreto do governador, antes da tragédia, que, se aplicado, ampliaria o desastre.
Vamos ao texto do Bayard. Ele é mais rico:
“As recentes pesquisas desenvolvidas pelo Instituto de Pesquisas e Estudos do Turismo da “UniverCidade”demonstram que Angra dos Reis vem se tornando um dos destinos preferidos pelos turistas estrangeiros que nos visitam. A Turisangra é hoje administrada de forma profissional e tem se preocupado com o desenvolvimento turístico do município, embora tenha que aprofundar os mecanismos de capacidade de carga da Ilha Grande.
No entanto, fomos surpreendidos por mais um descuido do poder público, aliado à falta de opção de moradia das populações, por dois acidentes durante o período de réveillon: o de uma comunidade no centro de Angra, que veio abaixo, e de uma pousada na Ilha Grande, que ficou parcialmente soterrada. É lamentável mais uma vez que só quando acidentes que vitimam inocentes acontecem os dirigentes vão para os jornais e televisão trazer solidariedade (às vezes tardia…) e mencionar obras que já deveriam ter sido executadas nos últimos 20 anos.
Os recursos, inclusive para evitar tais acidentes, não foram devidamente liberados pelo governo federal, alegando falta de projetos necessários para tal fim. O estado do Rio, por exemplo, tem hoje 60% de áreas que podem originar novos acidentes sem nenhuma política específica para preveni-los.
Estamos estarrecidos, inclusive pelas orientações, que haviam sido dadas pelo Tribunal de Contas do Estado do Rio e que não foram acatadas. O Brasil precisa não só criar diplomas legais para preservação do meio ambiente, o que tem feito muito bem, mas é preciso fiscalizar. Talvez a grande omissão seja efetivamente de um conjunto de recursos humanos, qualificados, que possa inclusive orientar as populações.
Não adianta ir para a televisão, dizer que não podem demolir construções irregulares, pois ali moram famílias que não têm para onde ir. Está justamente no discurso assistencialista e politiqueiro a proliferação de construções irregulares, mormente em áreas de risco, mas também em algumas mansões da Zona Sul do Rio, nas encostas e nas ilhas angrenses. A ocupação desordenada do solo urbano é a principal causa dos deslizamentos e quiçá seja vital uma lei de responsabilidade ambiental, com sanções.
Os recentes acontecimentos ganharam manchetes internacionais: tsunami no Rio, chuvas abalam réveillon em cidade do Rio, construções irregulares causam mortes durante réveillon, turistas são soterrados em paraíso natural, para citar apenas algumas. Tal divulgação já se faz sentir na baixa ocupação dos hotéis naquela região, em plena alta estação, inclusive com vários cancelamentos e consultas sobre a segurança.
Por outro lado, no Brasil, que é o maior mercado emissor para Angra (turismo doméstico), os veículos de comunicação divulgaram durante 13 dias, com várias chamadas, os tristes acontecimentos, as perdas fatais e os enterros. Tal relato é para mostrar a necessidade de uma campanha institucional por parte do governo estadual e federal para fortalecimento da imagem de Angra e, sobretudo, esclarecimentos para turistas em potencial.
Ao mesmo tempo em que agora se buscam soluções para os acidentes fatais, não podemos esquecer o turismo, que ajuda na sobrevivência do município, sobretudo da Ilha Grande, que vive quase exclusivamente de atividade turística e hoteleira.
Nossa preocupação é que novos acidentes fatais ocorram nos próximos meses, por força das chuvas que se anunciam. Assim, a população tem que se envolver como o fez para a segurança e até as “Diretas já”, para salvar o pouco que nos resta pelo descaso do poder público, da iniciativa privada que insiste em construir pousadas e hotéis em áreas de proteção ambiental, e ainda lutar pela ocupação ordenada de tais paraísos da humanidade.
Os destinos da Costa Verde devem se associar como produtos integrados neste momento de crise e talvez buscar um novo conceito de promoção e esclarecimentos, no formato de um gabinete emergencial de promoção. Cada vez que formos vítimas de um acidente natural, oriundo da ocupação irregular, e incluir nos planos de marketing hoje existentes ações rápidas de relações públicas nos mercados emissores. É assim que os destinos turísticos agem e o Brasil e o estado do Rio precisam copiar e, sobretudo, investir.
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