Arquivo da Categoria: ‘Turismo’

Um assunto antigo, mas atual

Em outubro de 1981, Rubem Medina publicou “Brasil, o Atalho para o Amanhecer”, uma obra destinada a rediscutir o Brasil e, em especial, o Rio de Janeiro, no momento importante de início da redemocratização.

O turismo é tema de um capítulo da obra e foi apresentado com o mesmo foco adotado pelo deputado estadual João Pedro, desde o momento em que ele assumiu a Presidência da Comissão de Turismo da Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro: “Rio, a Vocação Turística”.

Para demonstrar que o tema não envelhece, resolvemos transcrever algumas passagens da obra do Rubem Medina, que depois de ser deputado federal por nove mandatos consecutivos dedicados à defesa do Rio e do turismo como vocação econômica do Rio, exerceu a função de Secretário Municipal de Turismo na Cidade.

Medina abriu a obra com uma frase de seu pai, Abraham Medina, personalidade que durante toda a sua vida, dedicou amor ao Rio: “Hoje vejo minha cidade triste. E, no entanto, tudo que fez um dia o encanto do Rio continua aí: o sol, o mar, a paisagem e, sobretudo, essa gente de uma fibra a toda prova, pronta a sair às ruas cantando e dançando ao menor pretexto”.

No texto, mais adiante, depois de comentar os potenciais econômicos do estado com a industrialização, agricultura e serviços, Rubem Medina recupera a frase do pai para dizer: “O Rio, a cidade do Rio de Janeiro, independentemente de suas possibilidades industriais em zonas específicas, precisa, ao longo de seus quilômetros de praia, ser transformado num imenso, maravilhoso e ultra-rentável balneário. Como diz o meu pai, está tudo aí: o sol, a praia, a luz, as cores, a alegria e o charme de um povo, capital que não pode ficar estagnado como está agora.

E não só no Rio estão os potenciais turísticos deste estado. Onde, no mundo, encontram-se extensão de praias tão lindas, de mar tão azul e cristalino, de areias cercadas de vegetação agreste, ainda selvagem como na Costa do Sol?

Onde, no mundo, encontram-se serras como a do Mar, com cidades como Petrópolis, Teresópolis, Friburgo, Miguel Pereira, Itatiaia, que permitem o sol forte e quente pela manhã e o frio seco e saudável ao entardecer num mesmo dia?

E mais: por todos esses lugares – praias e serras – já existe a base de uma infra-estrutura turística, com hotéis e restaurantes de boa qualidade. Claro que ainda falta muita coisa, sobretudo em quantidade. Mas, isso só poderá surgir com um trabalho consciente e dirigido, planejado. Pois ninguém irá investir em turismo se não tiver a garantia de ter turistas. E, para isso, é preciso uma infra-estrutura de base (…)”.

Aqui, neste trecho, entra o deputado João Pedro: “Vejam vocês, que entre 1981 e 2010, lá se vão 29 anos. Naquele ano, eu contava 14 anos de idade e o Medina já apresentava um problema que eu, hoje, ainda encontro aqui no Rio: a falta de infra-estrutura necessária ao turismo. Ainda hoje, 29 anos depois da obra publicada pelo Medina, que já identificava um problema existente há muito tempo, o problema persiste.

È minha obrigação sensibilizar o governo do estado e a prefeitura do Rio para a oportunidade impar que temos para incentivar o turismo com o retorno do Rock In Rio, para o próximo ano, realização da Copa, em 2014 e das Olimpíadas em 2016.  Esse é um dos pontos que me motiva a ser candidato a reeleição e permanecer na Assembléia Legislativa na defesa do tema.

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Uma medida concreta de apoio ao turismo

Desde 2003, coisa, portanto, que conta mais de sete anos, tramita no Congresso Nacional um projeto de lei que estimula o turismo com a concessão de benefício fiscal para as despesas das empresas com programas de hospedagem para o lazer dos seus empregados.

O autor do projeto – 488/2003 – Senador Leonel Pavan, hoje Governador de Santa Catarina, justificou o projeto com dados do IBGE e da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (ABIH), referentes ao período compreendido entre 1993 e 2003, que demonstravam a importância do segmento de hospedagem para o turismo e o prejuízo econômico e financeiro do setor, em função da ociosidade histórica da rede de hotéis.

A iniciativa prevê também a criação do vale-hospedagem, medida inspirada no programa “cheque férias”, instituído na França em 1982. O vale será fornecido pelo empregador ao empregado para que ele utilize no pagamento de despesas de hospedagem e alimentação, quando incluída no valor das diárias.

A idéia do incentivo é de todo ruim, além de ser de complexa aplicação. Caminha na linha recorrente de criar modelos superficiais para fugir à responsabilidade de dar solução concreta aos problemas a partir de suas causas e não de suas consequências.

O turismo padece no Brasil, porque o Estado não investe na estrutura de transportes, na reforma das rodoviárias e aeroportos, no sistema de segurança e fiscalização dos serviços prestados ao turista.

Na verdade, o Estado Brasileiro não sabe lidar com o turismo e o projeto do ex-senador Leonel Pavan é mais uma obra desse sentimento. Se o trabalhador brasileiro não viaja com mais frequência, não é por falta de um vale turismo ou do incentivo dos patrões. Ele não viaja, porque a infra-estrutura do Brasil não ajuda e os custos dos demais serviços, como escola e saúde, consome recursos que poderiam ser destinados ao lazer.

Turismo

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Pesquisa Online

O Presidente da Comissão de Turismo da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro encaminhou o seguinte e-mail para as pessoas que compõem o seu banco de dados:

“É incontestável a vocação turística do Rio de Janeiro. Por conta disso, todas as políticas públicas e decisões de investimento do setor privado e do setor público influenciam a decisão do turista de visitar o estado e, por conseqüência, definem o nível e qualidade dos empregos, dos salários e impostos gerados por aqui.

Como deputado estadual e, em especial, como Presidente da Comissão de Turismo da Assembleia Legislativa, tenho entre as minhas obrigações, o compromisso de sugerir, adotar e cobrar medidas que valorizem o potencial turístico do Rio, para, desse modo, melhorar a qualidade de vida da população. E, para exercer as minhas funções, preciso de suas opiniões e sugestões:

O tudoeturismo teve acesso a algumas respostas e entendeu interessante resumir as sugestões mais importantes.

Reinaldo Leal pede um terminal de ônibus para atender os turistas. “Isso”, ele avisa, “beneficiaria os residentes e os turistas”. Atenderia melhor as pessoas que visitam o Museu do Trem, o Museu da Aeronáutica, o Museu Naval e tem que descer do ônibus bem antes e andar muito. Reinaldo lembrou também o caso da Cidade do Samba: “até hoje não tem um ônibus circular que deixe o passageiro na porta e atenda a que quem saia de lá”.

Almir Pereira Machado critica o excesso de pedágios nas estradas. “Só deveria haver pedágios em auto-estradas”.

Gerhard Erich Boehme, de Curitiba, escreveu: Tenho inúmeras sugestões, mas elas passam pela boa gestão, a começar pela criação de incubadoras, não apenas de base tecnológica, na área de C&T, mas também de base cultural, gastronômica, artística, turismo, etc.. Empresas nestes setores necessitam ser incubadas e não subvencionadas com recursos do Estado, dos pagadores de impostos. Tão logo elas possam andar com as próprias pernas, devem atuar de forma independente. Outra sugestão, fundamental é a Agenda 21 dos municípios, começando por um levantamento de todos os potenciais turísticos, gastronômicos e urbanísticos do município. E fundamental é assegurar o Plano Diretor, que seja transparente e que inclua áreas para o turismo gastronômico, religioso, tecnológico, arquitetura…

Carlos Couto comenta a necessidade de “concentrar esforços na manutenção e conservação dos pontos turísticos do Rio, para que estes, já que não é possível fazê-lo no Estado inteiro, sirvam como modelo”. E, dá como exemplos, o caminho do Aeroporto ao Centro da Cidade do Rio de Janeiro e a estrada que liga o Rio à Costa Verde, à Região dos Lagos e Serrana. Em seguida, sugere o oferecimento de ônibus turísticos e panorâmicos que “façam os três percursos turísticos com gravações, nas principais línguas, apontando e explicando os principais pontos turísticos da cidade do Rio de Janeiro”.

Heitor Luiz Murat de Meirelles Quintella cita os aeroportos do Rio e sugere: “primeiramente o retorno de vôos diretos ao Rio de Janeiro vindos do exterior e” a criação de uma política melhor de preços para as peças de teatro, para shows, exposições, visitas aos museus e a outras iniciativas, já que “temos a maior concentração de museus de padrão internacional na América do Sul, os melhores Chefes de Cozinha e a sede do sistema Globo. Heitor termina com a questão do turismo cultural: “explorar o passado imperial do Rio”.

Vera Lúcia Nogueira sugere mais segurança pública, instrumento essencial para uma política de incentivo ao turismo.

Turismo

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Turismo tem alma?

A jornalista Anamaria Rossi está por algum tempo (diz o Noblat) na cidade de Barcelona, de onde escreve as Cartas de Barcelona, publicadas pelo Noblat e no blog da jornalista, http://yoquesebarcelona.wordpress.com . O texto de agora, “O Turismo tem alma?” faz um alerta ao Rio de Janeiro: “E fico me perguntando se acontecerá o mesmo com o Rio de Janeiro depois das Olimpíadas. Se Santa Tereza vai sucumbir à pressão imobiliária, se Copacabana será transformada numa grande Rambla sem alma, se o inglês será a língua oficial na Zona Sul quando a horda de bárbaros chegar para ficar”.

Por isso e pela qualidade do texto, o tudoeturismo atende à sugestão do deputado estadual João Pedro e reproduz as palavras da Anamaria Rossi.

Os textos publicados pela Anamaria Rossi são excelente leitura e, em razão da experiência recente que teve a Cidade do Rio de Janeiro com o aluguel de bicicletas, vale a leitura do “Uma Cidade sobre Rodas. Duas”, que foi publicado no dia 20 de fevereiro tanto no blog da Anamaria, como no do Noblat. Aqui no Rio, pelo que se vê o projeto não colou.

Vamos ao “O Turismo tem alma?”

Por muitos anos a pequena Vila de São Jorge, na Chapada dos Veadeiros, viveu dividida entre cobrir ou não com asfalto os 36 km de terra que a separavam da cidade de Alto Paraíso, a 200 km de Brasília.

Quando a visitei pela última vez, ano passado, a vila já havia sucumbido ao apelo do progresso, e o asfalto chegava até o Morro da Baleia, logo depois do boteco do Seu Valdomiro, na metade do caminho até São Jorge.

Mesmo entendendo o desejo de alguns de preservar a autenticidade de suas vidas, sempre foi um mistério para mim o fato de alguém não querer o progresso.

Mas depois de quase um ano vivendo no coração da Barcelona turística, compreendo perfeitamente os tradicionalistas de São Jorge. E mais: virei uma tradicionalista.

Uma coisa é visitar um centro turístico, outra é morar nele. Tentar manter a rotina em meio ao turbilhão que passa sob a janela é um desafio para a sanidade mental.

Em seu último livro, “A cidade ilhada”, o escritor manauara Milton Hatoum situa um dos contos – “Encontro na península” – na capital da Catalunha.

Começa assim: “O ano é 1980: agosto, muito calor em Barcelona. E pencas de turistas barulhentos, como hordas de bárbaros vindos do Norte.”

Hatoum não exagera quando se refere aos veranistas que aportam aqui como “hordas de bárbaros”. E é muito preciso quando os identifica como “vindos do Norte”.

Europeus em sua maioria, a turba que desfila sob minha janela é das mais selvagens. Estou convencida de que a idéia do europeu civilizado é um mito que só se sustenta no inverno, pelo menos no caso dos turistas.

É claro que há pessoas educadas entre eles, mas elas estão de férias! Não precisam acordar às seis da manhã, levar filho ao colégio, enfrentar os exames na faculdade, trabalhar de segunda a sexta.

Que diferença faz para o turista educado se os mal educados ignoram a existência dos cidadãos locais e passam uma semana, um mês, uma temporada vivendo na cidade alheia como se ela fosse um imenso parque de diversões à disposição do seu prazer?

Se bebem até alta madrugada mapeando as ruas numa algazarra insuportável, quem se importa? Se mijam na parede atrás do bar desenhando um riozinho asqueroso, quem se importa?

Se despejam seus resíduos sólidos na porta da casa dos barceloneses ou invadem as igrejas em plena cerimônia de casamento com suas câmeras incansáveis, quem se importa?

“Os turistas se comportam como se estivessem realmente em um parque temático, e nós fôssemos os funcionários”, diz um amigo que vive há três anos em Barcelona.

A falta de limites para o turismo – e para o turista – é fruto do mesmo modelo de gestão de cidade que permitiu a escalada do mobbing imobiliário, do qual falei aqui há algumas semanas.

Um modelo que tem o turismo como fim, e não como meio. Que privilegia o temporário em detrimento do permanente. Que se apropria das tradições e as transforma em objetos de consumo, esvaziando-as de tal forma de seu conteúdo original que elas deixam de existir como tradições.

As Ramblas já não são as Ramblas, as tapas já não são as tapas, as paellas então nem se fale! Assim como já não se encontra, em Granada, uma legítima cueva gitana com um autêntico bailado flamenco, o que se vende aqui é apenas a imagem de uma Barcelona que se recolhe cada vez mais para o quintal.

Vocês vão dizer que eu sou uma chata que mora numa cidade maravilhosa e se dá ao luxo de reclamar. É verdade. Quando eu ainda era turista, achava tudo lindo maravilhoso. E ainda acho!

Mas não posso deixar de sentir o cheiro de urina na minha rua quando o sol esquenta, nem de me sentir invadida pelos gritos dos bêbados no meio da madrugada. Não posso evitar o desconforto de estar sempre cercada por uma multidão de desconhecidos cada vez que vou ao mercado.

E fico me perguntando se acontecerá o mesmo com o Rio de Janeiro depois das Olimpíadas. Se Santa Tereza vai sucumbir à pressão imobiliária, se Copacabana será transformada numa grande Rambla sem alma, se o inglês será a língua oficial na Zona Sul quando a horda de bárbaros chegar para ficar.

Só por isso compartilho aqui um desabafo tão pessoal. O desabafo de uma cidadã barcelonesa, ainda que temporária, contra a selvageria turística que invade a cidade na primavera/verão.

Porque acredito, de verdade, que ainda podemos salvar a alma brasileira.

Turismo

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